segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eu sou o que penso, não o que represento ser

Já escrevi muitas vezes sobre marketing pessoal e sua importância na vida do profissional. Mas tenho lido também matérias inquietantes nesse ramo de estudo que falam sobre comportamento, vestimenta e formas de falar e agir para que você se saia bem no mercado de trabalho e na sociedade.

Eu, inclusive, já escrevi a respeito desses temas, buscando direcionar o comportamento adequado para cada circunstância.

Hoje, não sei se é porque estou ficando velho, se estou evoluindo ou se estou enlouquecendo, mas já tenho percepções e opiniões um pouco diferentes daquelas que já tive em outros tempos...

É que quando penso em marketing pessoal no que refere-se à forma de se arrumar e se vestir, acho que estamos nadando contra a maré da liberdade individual de apresentar-se segundo a sua tribo e sua verdadeira classe social. É quase como entrar no seu escritório, vestido e paramentado na forma como o seu capital permitiu, e ter que colocar na testa um aviso: "Eu sou o que penso, não o que represento ser". Em outras palavras, aquela forma de construir opinião sobre os valores dos outros pelo que se vê em seu aspecto é a maneira mais imatura e superficial de se avaliar uma pessoa.

Note que esse texto não é um estímulo para você quebrar tabus e paradigmas, mas para construir um mundo onde cada um seja visto pelo que realmente é, pelos seus valores, conhecimentos e capacidades, e não pelo aspecto visual daquilo que parece ser.

Eu vejo como pessoas dizem com grande admiração daquele professor da faculdade: "você olha para o professor e vê um cara barbudo, com camisa de roqueiro, anéis nos dedos, tênis velho e não imagina que ele também é pastor, formado e pós-graduado no exterior, com experiências em empresas multinacionais e toca sax em banda de jazz... é um cara incrível!". Ora, o cara veio usando o seu estilo, trazendo o seu conhecimento e ganhando os corações dos estudantes pelo que sai da sua boca. Nesse ambiente, talvez haja alguma liberdade para você libertar o seu "Eu" interior.

Onde eu quero chegar com esse artigo é no que as pessoas estão se transformando quando entram na vida adulta. Estamos perdendo nossa identidade para nos vestirmos e nos comportarmos de acordo com os padrões da sociedade e costumes das pessoas, e não os nossos. Temos medo de ser o que somos porque sabemos dos julgamentos dos outros estereotipando cada um segundo o que foge da "normalidade". Devido a essa mentalidade egoísta, pessoas obesas ou extremamente magras, carecas ou barbudas, mulheres religiosas com a cara limpa ou pessoas tatuadas e adeptos a outros grupos específicos acabam sendo discriminados por gestores de mente fraca, que não conseguem olhar a essência de cada um, separando sua vida pessoal daquilo que ele pode trazer de positivo ao seu negócio.

Mas então o que é marketing pessoal?!

Na sua essência, o marketing remete à ideia de vender algum conceito e influenciar a alguém. No marketing pessoal, o objetivo seria vender uma boa impressão de você a alguém. Ora, se você está a procura de um emprego, o apelo de marketing que você deve destacar são as suas competências e suas qualidades produtivas em primeiro lugar, seguido de seus valores pessoais, e por último, menos relevante de tudo, o seu aspecto pessoal.

Há pessoas que perdem muito tempo preparando a sua imagem mas não conseguem construir um currículo eficiente, e pior ainda, não têm a confiança necessária para representar no momento da entrevista o personagem que trouxe sobre si mesmo.

É por isso que meu conselho para esse momento é que você deve se preocupar primeiro em graduar-se, ganhar experiência (não necessariamente nessa ordem), mostrar sua força de vontade em aprender e trabalhar arduamente, para só depois preocupar-se com a roupa, relógio, jóias e adereços que aprendeu a admirar nas novelas e revistas de moda. Pois o seu principal apelo de marketing, acredite, é aquilo que você realmente é e tem a oferecer. Quem não estiver pronto para avaliá-lo sob esse ponto de vista certamente não lhe será um bom patrão.

E entenda uma coisa: você só será único quando aprender a destacar e valorizar o que vem de dentro. Porque o que está por fora na maioria das vezes é uma mentira que qualquer um pode ter e qualquer um pode comprar e representar.

Mas então eu devo me vestir mal?

Não. Esse artigo não diz que você deve ir trabalhar de bermuda e chinelo. Diz apenas que você deve priorizar as coisas importantes, aquilo que de você só a morte pode tirar: o seu conhecimento e força de vontade. Acontece que muita gente se envergonha por não parecer sofisticado, por não poder fazer uma permanente nos cabelos, por estar a cima do peso ou não poder colocar uma prótese nos seios. Se você entra para trabalhar em uma agência bancária e acha todo mundo muito chique, não gaste o seu cobre para parecer igual a eles. Vista-se como sempre se vestiu: com graça, bom gosto e simplicidade. E faça um excelente trabalho, pois quando ficar rico poderá vestir-se de fato como um rico, pois agora sim essa será a sua tribo.

O marketing pessoal deve andar na medida do bom senso. Parecer extravagante portando-se de forma a chamar a atenção das pessoas pode ser um péssimo negócio. Nem todo mundo aprecia isso, e um pouco de distinção é recomendado para que suas convicções não o transforme em uma espécie de alienígena perante a sociedade. Você será discriminado, pois aquilo que foge grosseiramente dos costumes da coletividade é visto como anormal.

Isso pareceu contraditório com o exemplo do professor da faculdade? Mas não é. Trata-se de saber posicionar-se de acordo com cada ambiente, selecionando também onde poderá expressar sua verdade com total liberdade e onde deverá ser mais discreto para uma melhor aceitação. Assim fará bom uso do marketing pessoal como ferramenta a seu favor no que refere-se à sua inclusão em outros grupos.

E quando a empresa obriga a usar uniforme?

A palavra já diz tudo: uniforme significa nivelar todo mundo para que haja um padrão de comunicação visual único entre os funcionários. Ao concordar trabalhar em determinada empresa, você concorda também com as normas internas, e não deve reclamar depois. Assim, se ela estabelecer em seu regulamento interno o tipo de roupa, tipo de penteado e tipo de maquiagem, desde que ofereça os recursos para que você se enquadre e desde que comunique isso antes de você assinar o contrato de trabalho, concordar ou não é um direito seu. Não concordando, desista desse emprego. Concordando, cumpra o regulamento sem reclamar. Aqui o marketing pessoal não tem vez e nem por quê.

A única coisa que uma empresa não pode exigir é que você seja loiro, ou seja branco, ou seja alto, ou seja magro (salvo se a função a ser executada exigir alguns diferenciais de ordem física e motora), pois são aspectos pessoais que você normalmente não teve opção de escolher antes de nascer.

E para fechar o artigo...

Vamos nos esforçar para aceitar a nós mesmos pelo que somos fisicamente e socialmente focando nossos esforços em adquirir conhecimento, conquistar respeito pela nossa força produtiva e alcançar sucesso profissional antes mesmo de perder nosso humor diante do espelho. O marketing pessoal deve ser visto como uma ferramenta para a sua projeção pessoal e, com exceção das profissões que exigem beleza exterior, tudo o que importa mais no mercado de trabalho é o resultado que você tem a oferecer.

Saber falar é mais importante do que saber vestir-se. Fazer cursos é mais urgente do que fazer plásticas. Mude o foco e construa um futuro verdadeiro para você. Um futuro fundamentado naquilo que realmente importa no seu ramo de atuação.