quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Marketing pessoal x conhecimento

Vejam só esse diálogo ocorrido a certa altura de uma entrevista de emprego:

Entrevistador - Não pude deixar de notar que o Senhor, apesar do status elevado adquirido como profissional, não usa um carro de luxo. Não seria mais adequado, devido a sua posição social?

Entrevistado - Meu status atual é pai, esposo e servo de Deus. Minha condição profissional e financeira de momento podem significar algo para a sociedade, mas segundo meu status, preocupo-me apenas em utilizar o carro mais conveniente para minhas expectativas pessoais, independente da expectativa das pessoas a meu respeito.

Entrevistador - Por essa resposta posso compreender o por quê de o senhor não estar utilizando roupas que evidenciam uma grife...

Entrevistado - Brilhante observação! Trago comigo a objetividade, o conforto e a conveniência na forma de me vestir, pois o que tenho a oferecer profissionalmente não sofre a influência dos acessórios. Meu histórico confirma que não foi a marca da camisa, do relógio ou o corte de cabelo que me ajudaram a trazer os resultados que meus contratadores esperavam.

Entrevistador - Então o senhor não se preocupa em andar fora da moda?

Entrevistado - Sim... me preocupo em não parecer ridículo no contexto. Mas não me preocupo se minha camisa custa 79,90 ao invés de 300,00, e nem me obrigo a usar um relógio de 5.000,00 só para ver as horas.

Entrevistador - Mas esse ponto de vista pode desvalorizar a sua pessoa perante outros executivos.

Entrevistado - Executivos com essa superficialidade eu não faço muita questão de ter ao meu lado. Prefiro trabalhar com quem seja capaz de valorar a minha capacidade produtiva após um diálogo.

Entrevistador - Mas muitos executivos do mesmo porte do senhor gastam com artigos de luxo e esse dinheiro não lhes falta falta no final do mês.

Entrevistado - Concordo com você e respeito o meio de vida deles. Porém, eu tenho valores sociais próprios e sinto-me perfeitamente bem adaptado a isso, sem me preocupar com o que pensam a meu respeito. Não é o status social que me proporciona satisfação.

Entrevistador - O quê lhe proporciona satisfação?

Entrevistado - Realizar. Para mim é indiferente que alguém me diga um "parabéns", ou "muito obrigado por tudo isso", pois o simples fato de ver a minha obra realizada no trabalho e minha família com qualidade de vida me envaidece.

Entrevistador - Então o montante de pagamento que a empresa lhe oferecer não tem muita importância para o senhor?

Entrevistado - Tem sim, pois trata-se de valorizar o resultado que eu me proponho a oferecer com as ferramentas que posso disponibilizar através do conhecimento agregado. O meu custo de vida é adaptável e não tem relação com o valor do meu trabalho.

...

Bem, os amigos devem estar pensando que aqui jogamos por terra todos os estudos de marketing pessoal para a projeção de carreira.

Mas engana-se quem define marketing pessoal apenas como uma forma de se apresentar. Está implícito nesse contexto a forma de se promover através da boa fala, velocidade de raciocínio para a defesa de argumentos e consolidação da personalidade.

Ás vezes pode ser muito mais prejudicial para a sua imagem a cópia de um esteriótipo visual sem conteúdo para garantir o sucesso na hora H do que o preparo através de um vasto aparato de conhecimentos gerais, personalização do caráter e segurança em expor quem você realmente é.

Estamos diante de uma sociedade fútil e relativamente superficial, onde o "parecer ser" ganha dimensões superiores ao "ser de fato" na valorização pessoal. O tempo que se dedica a construir valores pessoais através daquilo que a sociedade convencionou como certo tem desviado o foco das pessoas para o que realmente importa, que é a visão e percepção do que não se enxerga com os olhos.

Essa síndrome da auto afirmação e de sensação de aceitação social tem tirado o sono e consumido o capital de muita gente, ao passo que quem está dedicado ao próprio desenvolvimento e bem estar está em paz consigo e em harmonia com o mundo.

Assim, não é o deixar de vestir-se com grife que estou defendendo. Mas convido-o a pensar que ao desenvolver seu marketing pessoal lembre-se sempre do pós-venda (pós-primeira impressão). Ou seja, o que as pessoas vão pensar sobre você após conhecê-lo verdadeiramente.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O sucesso que você alcança após a morte

Em debate recente durante uma aula de filosofia contemporânea, coloquei-me a ponderar sobre o assunto traçando um paralelo entre a atualidade e as outras fases da filosofia na vida pessoas.

O fato é que em sua origem, a filosofia buscava o conhecimento através do questionamento, estabelecendo um vínculo inseparável entre a explicação propriamente dita e a razão naquilo que se observava nos fenômenos sociais, materiais e físicos. Para o filósofo não bastava explicar e justificar qualquer coisa. Precisava haver racionalidade, lógica, nexo, e não apenas crença ou herança do conhecimento já estabelecido como verdade. Esse era a principal divergência entre a filosofia e a religião.

Dali em diante passaram-se muitos anos e o pensamento filosófico foi evoluindo, como qualquer outra ciência, pois o mundo mudou. O homem mudou, a ciência evoluiu e os campos de ciência social também alcançaram resultados inovadores, o que trouxe como principal conseqüência (ou característica) a perda de força das velhas doutrinas e valores comportamentais ditos cristãos na vida das pessoas. Essa foi uma característica verificada desde o final do século XX, onde as expectativas sociais do mundo consumista e igualitário, principalmente com a mulher conquistando o conhecimento acadêmico, o mercado de trabalho e a própria independência financeira, já não se enquadravam mais àquilo que as igrejas apostólicas ensinaram durante todos os anos de existência da religião cristã.

Nesse momento a sociedade construiu intuitivamente uma nova percepção sobre o direito individual, tendo a sua liberdade como um bem inabalável, o que provocou um distanciamento das pessoas das regras comportamentais impostas pelas religiões desde a sua origem.

Esse fenômeno originou uma nova necessidade e consequências pontuais, estabelecendo uma característica que considero a mais marcante no pensamento filosófico atual. De imediato, o desenvolvimento social do indivíduo na busca de sua individualidade trouxe à tona a quebra de tradicionais valores familiares e sociais com a ascensão da valorização do indivíduo e seus próprios conceitos e objetivos pessoais. Daí vem o aspecto que justificou a produção desse artigo: a busca pelo sucesso.

Em sua caminhada rumo ao sucesso (mais do que necessário para a sua própria sobrevivência), o indivíduo, não medindo esforços para alcançá-los, abre mão do relacionamento familiar, do vínculo e estabilidade matrimonial e até de um plano profissional de médio e longo prazo, buscando satisfazer suas expectativas imediatas. Suas necessidades de projeção social prevalecem a qualquer outro propósito, o que os leva a uma vida aparentemente solitária, altamente informatizada e desapegada de qualquer outra coisa que possa atrasá-los em sua busca. E assim o novo homem alcança seus objetivos, mas não se considera ainda “um sucesso”.

Nesse momento é necessário diferenciar “sucesso” de “conquista”. A conquista é mensurável, o sucesso não. A conquista satisfaz um desejo projetado, mas o sucesso nunca se alcança, pois não se sacia após uma conquista. E uma vez reconhecido isso, mesmo sem perceber, o homem moderno passou a sentir falta de uma busca que norteasse a sua vida por toda a sua existência, e daí ressurge a religião em um novo formato: a religião através da espiritualização, e não mais normatizando comportamentos sociais.

A nova sociedade, após “libertar-se” das doutrinas impostas pelas religiões, voltou a buscar um sentido para sua vida através do qual tivesse sempre uma meta a conquistar, dia após dia, através da espiritualização, um caminho de paz, um sentimento de justiça e proteção divina, inclusão e ao mesmo tempo liberdade em uma sociedade religiosa que não lhe impusesse regras mais rígidas do que aquelas que o próprio mundo lhes impõe como cidadãos.

Todo esse contexto explica a visão moderna da filosofia, a qual compactua com uma verdade que combateu em sua origem: a de que o pensamento místico e religioso podem conviver pacificamente com o conhecimento através da razão.

Essa visão certamente foi uma construção baseada no avanço da ciência, a qual dá por consolidado aquilo que a filosofia original trouxe como herança ao mundo moderno, que é a busca da racionalidade em todas as esferas do conhecimento, inclusive no teológico aceitando o ser humano como alguém que necessita da fé no invisível para satisfazer necessidades interiores latentes para o alcance do sucesso pleno, aquele que se conquista após a morte através da ascensão espiritual.

E é nesse momento que cessa a etapa de conquista e o homem é declarado oficialmente um cidadão que alcançou o sucesso, vencendo obstáculos durante toda a sua vida até o dia da sua morte.

Com isso, concluo esse estudo conceituando a filosofia contemporânea como aquela que reconhece o pensamento e a razão como uma busca pelo conhecimento e auto-conhecimento, dando ao homem a liberdade de, mesmo detentor do conhecimento pleno acessível acerca de diversas ciências, poder buscar o conhecimento espiritual, com base na fé, percepção de sentimentos únicos e indefiníveis no qual cada um estabelece a sua porção de certeza e razão.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Segunda-feira, dia de reunião

Se você leu o título dessa postagem e ficou feliz, parabéns: você é um profissional de sorte, está sendo conduzido por um líder. Mas se quando você leu esse título bateu aquele desgosto, sinto muito... você é mais um daqueles que trabalham para um chefe.

Resolvi escrever esse artigo só para destacar o quanto alguns transformam um evento importante como a reunião de trabalho em um castigo, momentos de angústia e aborrecimento a muitos profissionais de sua empresa.

Em primeiro lugar, reunião não deve ter dia e hora certa no calendário. Reunião serve para solucionar problemas ou traçar objetivos. Se na sua empresa você tem reunião conjunta com os departamentos toda semana no mesmo dia, isso é sintoma de chefia incompetente. E sabe como eu cheguei a essa conclusão? Basta analisar o mundo animal: os animais selvagens marcam seu território urinando no entorno de tudo aquilo que eles consideram "seu". É por isso que antes das reuniões semanais os funcionários dizem "vamos lá, que o chefe vai dar outra mijada em nós...". Isso mesmo, o chefe reafirma seu comando através das reuniões semanais, mais para mostrar quem é que manda do que para resolver problemas práticos da empresa e traçar novos objetivos.

Com exceção das reuniões que têm foco nos resultados alcançados e discussão de propostas para a nova semana, as reuniões que envolvem todas as gerências da empresa não passam de reafirmação de conceito: aqui tem chefe.

Por isso se você é um líder da corporação faça reuniões semanais sim, mas com grupos específicos, tratando de assuntos pertinentes a cada departamento.

Agora, se o seu negócio depende de uma integração entre setores que operam com a mesma atividade-fim, ou seja, todos estão realizando atividade convergente, daí sim a reunião em grupos maiores se justifica. Isso aplica-se a uma equipe de obra, por exemplo, onde todos estão trabalhando na construção, mesmo que em atividades distintas; ou em um supermercado, onde há grupos muito ligados no atendimento/venda ao cliente; e até no hospital, enfim. Mesmo assim, cabe aqui uma ressalva, pois o setor de contabilidade, CPD, financeiro, RH e marketing desses empreendimentos normalmente não estão ligados diretamente ao mesmo propósito de quem está na linha de frente, pois são suporte operacional (retaguarda), devendo, portanto, desconectar-se dos assuntos do primeiro grupo e terem suas atividades discutidas separadamente.

Poderia passar a tarde aqui falando dos prós e contras das reuniões de trabalho, pois todas elas podem ser positivas, mas muitas acabam sendo negativas, dependendo da forma e objetivo com que são conduzidas.

Portanto, se você vai marcar uma reunião prepare-se com uma boa pauta e coloque-se no lugar do ouvinte para projetar a repercussão e os resultados. Pois ao término você estará sendo avaliado pelos participantes, e sua liderança poderá ser colocada em cheque.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Os novos governos e o combate à criminalidade

Quando você escuta um candidato falar sobre a segurança, enfatizando a falta de investimento em policiamento, fica aquela sensação de que no próximo governo não sairemos da mesmice...

Estou à procura de quem pensa a longo prazo, com ênfase na desconstrução da criminalidade através de trabalhos sociais maciços nos bairros e famílias, além de trabalho pesado na repressão dos usuários de drogas, pois é onde se gera a demanda crescente, resultando na oferta abundante (o traficante). Ao invés de construir mais presídios, precisam construir centros de recuperação avançado e gratuito a usuários de droga de todas as classes sociais. Deixar essa solução no amadorismo e boa vontade dos milhares de pastores, igrejas e voluntários que prestam esse serviço Brasil a fora não é suficiente para a solução do problema.

O crescimento da criminalidade no Brasil é o resultado de efeitos de ação e reação na sociedade onde, por um lado, a falta de oportunidades de trabalho leva alguém ao mundo do crime, e por outro, o aumento de renda de muitas famílias leva cada vez mais jovens, sem orientação e acompanhamento familiar adequado, ao consumo de drogas. E então o ciclo torna-se crescente com todas as demais consequências indiretas e letais à sociedade.

Daí aparece o político espertalhão e critica a gestão anterior, que não destinou recursos ao policiamento das cidades. E então, vamos usar a tática da câmera de segurança, que filma o bandido mas não impede o crime?? Vamos nos contentar com a vingança de prender o assassino, mesmo sabendo que nada trará a vítima de volta? Policiamento não reduz o crime, só o transporta para outro lugar. É como as UPP's do Rio, que transferiram os traficantes para outra boca de fumo e nada mais. Ou alguém acha que os traficantes da região pacificada foram ao SINE procurar emprego... Isso sem falar no objetivo de fato dos sistemas prisionais, que é "ressocializar o infrator". Eis aqui o que chamam de ressocialização no Brasil:

Vamos abrir os olhos e filtrar o blá-blá-blá de sempre para buscar um projeto de governo focado em soluções de curto, médio e longo prazo. Reduzir a criminalidade é projeto de longo prazo, para ver os resultados após 10 anos de investimento, visando fazer com que as crianças de hoje não experimentem drogas e nem busquem ganhar a vida traficando quando chegarem aos 18.

Você conhece alguma criança que sonha em ser traficante? Pegunte o que ela quer ser quando crescer para ver se ela diz "ladrão" ou "traficante"! Todo mundo quer ter uma profissão, mas a falta de oportunidades e descaso social do Estado, que não cumpre com a democrática Constituição de 88, os leva a usar e vender drogas depois de adultos.

E pensar que é tudo tão simples de se fazer: investindo-se em escolas públicas de qualidade, com orientação pedagógica, religiosa e social profissionalizada, com alimentação de qualidade, atividades extra-classe de interesse da juventude, tudo mudaria paulatinamente. Você combateria a ignorância com ensino de verdade, promoveria integração social e inserção de valores morais ao cidadão, tiraria crianças do ambiente do crime e da vida fácil dos pequenos furtos, formaria estudantes com potencial para o estudo acadêmico, melhoraria o perfil dos candidatos a vagas de primeiro emprego, e no prazo de 10 anos, investindo-se de verdade e com volume de dinheiro suficiente para sustentar essa estrutura em todo o país, o número de usuários de droga e a criminalidade cairia para números muito menores. Precisamos fechar essa fábrica de bandidos chamada "desigualdade social", alimentada pela desigualdade cultural, pela falência dos valores morais e civis e pela falta de incentivo aos empregadores.

Agora, um governo não se constrói com miopia administrativa, pois com a extinção do analfabeto funcional e melhoria nos índices de aproveitamento escolar, o desenvolvimento econômico através de uma política tributária mais razoável, revisão da CLT e o incentivo de fato ao empreendedorismo torna-se crucial para a absorção de uma mão de obra juvenil ansiosa por mostrar serviço, com aumento de fato nos contratos de trabalho formais e redução das falências de micro e pequenas empresas.

Enfim, filosofando sobre esse tema, volto a lamentar a fraca atuação e planejamento dos candidatos aos governos do Brasil, onde via de regra busca-se muito mais influência e poder político do que ação de fato nos temas apontados diariamente pelo povo através da imprensa. E assim caminharemos mais uma vez a quatro anos de mediocridade administrativa, sem nenhuma solução de fato aos temas de maior importância à coletividade. O brasileiro padrão segue como em sua histórica "evolução": alienado, abandonado pelo sistema e sem capacidade de construir uma crítica contundente até para cobrar seus governantes. Vale a pena ver de novo?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Hipossuficiência nas relações jurídicas é coisa do passado

Há um termo no mundo jurídico, que norteia diversas legislações e jurisprudências, que se chama hipossuficiência. Ele nada mais é que um termo desatualizado em seus propósitos, e que ainda não foi reconsiderado por muitos juristas atuais em inúmeras situações de conflito.

A hipossuficiência é a denominação que se dá à parte fraca de alguma relação, aquela que depende de outra direta ou indiretamente, onde seu poder de argumentação ou sua vontade de fato pouco vale perante a parte forte, a que detém o controle da situação.

A Lei Maria da Penha, que protege a mulher vítima de abusos, violência e opressão no ambiente doméstico e familiar, é um exemplo da clara importância de se considerar a hipossuficiência da mulher perante o próprio marido, que a sustenta, oferece moradia e possui maior força física para controlá-la, ao invés de respeitá-la.

Porém, há inúmeras situações onde a hipossuficiência já não é mais um termo a ser considerado como verdade absoluta em diversos tipos de situações onde, outrora, tinha sim o seu fundamento.

Vejam bem os amigos o que significa um mercado capitalista, onde a livre concorrência torna o comerciante e o industrial obrigados a respeitar e oferecer o seu melhor ao consumidor, sob o risco de sucumbir diante de uma concorrência mais ética e estruturada. Em um cenário competitivo, o poder de fiscalização e de escolher onde e como comprar pertence ao consumidor, outrora chamado de hipossuficiente por não ter opções de escolha.

Hoje o consumidor se dá ao luxo de emitir seus comentários em rede nacional através das redes sociais sobre aquilo que ele julga tratar-se de um mau atendimento, criando uma perda considerável na credibilidade de um comerciante ou industrial diante de um fato que pode bem ser mera mentira. A Coca Cola é vítima freqüente desse tipo de ato, onde a parte reconhecida como hipossuficiente fala e escreve o que bem entende sobre seus produtos sem risco de punição, através da garantia constitucional da livre expressão.

O consumidor, em um mercado concorrencial, necessita sim dos órgãos de proteção para apoiá-lo, sem custo, na solução de conflitos na esfera de consumo, e nada mais do que isso, ressarcindo-o de eventual prejuízo material através de uma conciliação entre as partes. O que a lei chama de “danos morais” está se transformando em uma indústria de indenizações totalmente infundada e tendenciosa, onde a mera reparação do dano propriamente dito não parece ser suficiente, devendo também o comerciante ressarcir a vítima por algo imensurável. O dano moral, que deveria considerar o constrangimento público, prejuízo profissional ou qualquer outro dano de fato considerado relevante, passou a ganhar força e oferecer indenizações à parte hipossuficiente pela mera justificativa de ser essa chamada simplesmente de “hipossuficiente”.

O mesmo ocorre na esfera trabalhista, onde a parte hipossuficiente já foi subjugada pelos empregadores em situação de grande crise e desemprego. Hoje, perante o desenvolvimento da legislação trabalhista e o aquecimento econômico, o que se percebe não é o desemprego, mas o desinteresse do trabalhador em qualificar-se para ocupar as vagas de emprego disponíveis. Quem precisa do trabalhador, do seu empenho, qualificação e comprometimento com o negócio é o empregador. Pois através do trabalhador qualificado é que se mantém a excelência nas relações comerciais a fim de não lesar o consumidor lá na frente. No momento atual, na área trabalhista observa-se uma inversão de valores, onde o aparato legal para proteger o trabalhador sob a égide filosofal da hipossuficiência, ultrapassa sua necessidade de proteção e transforma o trabalhador em um usurpador dos direitos alheios, promovendo abusos, ameaças indiretas ao negócio do empregador e um certo conforto no ambiente profissional, como aquele de alguém apadrinhado por uma entidade mais forte e influente.

Tudo isso serve como reflexão para aqueles operadores do direito que não têm nenhuma noção do que se passa no ambiente de trabalho da maioria das empresas, salvo enquadrar a CLT ou o Código de Defesa do Consumidor ao depoimento destes que se dizem vítimas, mas que no seu dia a dia movimentam a indústria das indenizações resguardados pela frase mais estúpida criada por algum filósofo do direito: quem almeja o lucro, deve arcar com os prejuízos. Nesse contexto, é o mesmo que dizer: se você for um empreendedor, esteja pronto para aceitar que, perante o Direito, você já nasceu condenado.

Vamos focar esforços para falar de hipossuficiência quando tratarmos de abusos ou negligência em serviços essenciais e muitas vezes exclusivos, tais como hospital público, energia elétrica, serviço de água e esgoto, estradas de rodagem e pedágio, transporte coletivo, etc. Daí sim a hipossuficiência fará todo o sentido, pois o consumidor não tem opção de escolha e é obrigado a contratar o que tem. E na área trabalhista, sejamos mais críticos e menos protecionistas, pois princípios do direito como a primazia da realidade, por exemplo, simplesmente colocam por terra qualquer possibilidade de se promover a administração de recursos humanos de uma empresa séria...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O homem, seu instinto, sua razão e sua performance

O filme/animação “Megamente”, para quem não observou com atenção, é uma demonstração de que possuir, e pura e simplesmente alcançar a posse de muitos bens, não simboliza a conquista da felicidade.

Simboliza sim uma felicidade momentânea, aquela de uma conquista de conforto, segurança e um certo poder. Mas após alguns dias de usufruto dessa conquista, a falta de novas ambições ou realizações volta a assombrar o ego de qualquer ser humano, cujo instinto de conquistas ainda pulsa em sua mente e coração desde o mais antigo exemplar de homem que se tem notícia na história.

Isso acontece porque somos seres cuja subsistência depende de conquistar segurança, água e alimento todos os dias. Nossa estrutura corporal assim o exige, o nos obriga a lutar não apenas pelo alimento de hoje, mas pelo de amanhã e o de todos os dias de nossa existência, pensando inclusive na aposentadoria e subsistência na velhice.

Somado a essa característica, ainda temos a necessidade de nos socializarmos e de estabelecer vínculos, de tal maneira que, diferentemente de outros animais, não temos apenas a necessidade de gerar descendência, mas de amar e sermos amados.

Porém, essas percepções não se apresentam na mesma medida para todas as pessoas. Há um grupo que busca a realização de feitos relevantes, de atos significativos para si mesmo, o qual pode variar de pessoa para pessoa. Alguns chamam de conquista e realização a obtenção de poder e influência; para outros é a conquista de um alto salário através de algum trabalho; outros consideram conquista o alcance de conhecimento para seu próprio usufruto; e há também aqueles que prestam serviços sociais ou religiosos para o bem de outros, cujo ato freqüente simboliza grandes conquistas e realizações.

Outro grupo não vive para alcançar realizações, mas apenas sobreviver na luta diária pelo mínimo necessário. Esse grupo representa grande parte da população, a qual nunca foi estimulada a realizar mais, mas conformar-se com sua condição e lutar dia após dia pelo que a sorte lhe reservou desde o nascimento. Esse grupo representa uma mão de obra mecânica, de baixa performance, cujo esforço a mais não lhe parece representar o benefício de possibilidades futuras para uma ascensão social. O termo “Pró atividade” não tem nenhum valor prático ou significância nesse grupo. Trabalham por trabalhar, para cumprir com suas necessidades orgânicas. Esse imenso grupo, se receber alguma ajuda do governo ou o suficiente para sobreviver, já se deu por satisfeito, não lutará por algo mais, a não ser amar e ser amado. Eles querem ficar ricos, admiram o dinheiro, mas para alcançá-lo se utilizam dos meios menos dispendiosos, como jogar na loteria.

Meditar sobre essas pequenas considerações nos leva a otimizar nosso tempo quando estamos na liderança de pessoas, pois saber identificar em qual grupo se enquadra cada um dos nossos colaboradores nos permitirá saber dosar nossos esforços, reduzir nossas insatisfações baseadas em expectativas sobre certas pessoas, e direcionar os apelos motivacionais mais adequados para alcançar os resultados que esperamos para cada operação.

Mas precisamos tomar o cuidado de não cair no erro de achar que todos os que trabalham com atividade braçal estão inseridos nesse último grupo. Ao contrário, há muita gente começando de baixo que está cheio de ambição e energia para subir.

Daí vem a importância da conversa cotidiana com funcionários sob a nossa gestão, pois é na informalidade e na troca de confiança que obtemos as melhores demonstrações sobre o quê constitui seus valores individuais para assim buscar meios de melhorar, mesmo que seja apenas consolidar, um relacionamento responsável para o trabalho de rotina.

Lembrando ainda que, mesmo faltando os atributos necessários para um trabalho dinâmico ou em busca de realizações, todo e qualquer ser humano tem uma característica em comum que vale como ferramenta de gestão para todos os líderes: todos ambicionam sentir-se amados e respeitados. O líder que souber explorar e valorizar essa demanda, certamente terá todos os membros de sua equipe em suas mãos.

Portanto, liderar é interagir com o grupo e com o indivíduo. O líder que não conhece a fundo cada um de seus colaboradores não passa de um chefe...

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Procon e a antítese de órgão de utilidade pública

Tenho observado com frequência as visitas do PROCON nos estabelecimentos comerciais, onde nesses muitos anos de varejo tenho tido uma impressão cada dia pior a respeito do propósito da existência dessa entidade. Não quero falar de caso isolado para não dar conotação de desabafo nesse artigo, mas vou fazer aqui minhas mais sinceras observações a respeito desse órgão em sua forma de atuação.

Em primeiro lugar, meu entendimento a respeito do PROCON era de que tratava-se de um organismo dotado de poderes para interceder pelo consumidor na ocorrência de abusos na relação comercial, onde o descumprimento de contratos, falta de assistência ou de atendimento às reclamações, e até prática comercial abusiva, deveriam ser o escopo de seus agentes e fiscais. Cuidar da validade e da qualidade dos produtos é tarefa da Vigilância Sanitária, e cuidar da veracidade do peso das embalagens de acordo com o que está dentro é tarefa do IPEM. Assim, o Procon deveria ater-se em regular possíveis insatisfações dos consumidores buscando uma conciliação/reparação, advertindo e até multando o estabelecimento infrator conforme a gravidade.

Eu esperava, por exemplo, que o Procon devesse fiscalizar a formação de cartéis nos postos de gasolina de cada cidade; deveria fiscalizar os preços abusivos de estacionamentos de shopping centers e aeroportos, onde você não tem outra opção para estacionar e é obrigado a pagar o quanto pedem; deveria fiscalizar inclusive o preço dos alimentos e bebidas vendidos nos restaurantes dos aeroportos, onde você fica esperando uma conexão e é obrigado a se alimentar com o que vendem no saguão, pagando até R$ 5,00 por um pão de queijo; deveria fiscalizar os preços dos produtos sazonais, como material escolar, que sofrem aumento desproporcional na véspera de volta às aulas... Enfim, deveria fiscalizar coisas que pudessem lesar não apenas o consumidor mais mal esclarecido, mas o consumidor em regra geral que fica na mão de determinados prestadores de serviços ou comerciantes de produtos essenciais.

Mas ao contrário, vejo um Procon muitas vezes procurando o quê fazer em fiscalizações sem objetividade, apreendendo produtos erroneamente chamados de avariados, autuando estabelecimentos mediante alegações desproporcionais de consumidor estressado e agindo até com certa satisfação cada vez que seus fiscais executam alguma apreensão de produtos que julgam estar fora do padrão estabelecido em lei. Uma verdadeira falta de respeito ao empresário trabalhador e sua equipe de funcionários humanos, imperfeitos como qualquer outro, provocando inclusive um forte constrangimento ao estabelecimento comercial quando andam e se divertem fazendo apreensões e atirando displicentemente os produtos em um carrinho de compras em pleno horário comercial. Ao basear-se no velho jargão “o cliente sempre tem razão” o Procon deixa de ser uma entidade reguladora de abusos comerciais para se tornar uma ferramenta de opressão e penalização do comerciário de forma arbitrária, onde a intolerância do consumidor muitas vezes é levada ao pé da letra onde caberia apenas reparação de pequenos prejuízos ou desconfortos no atendimento.

E quando falo em lei, entro em uma esfera mais delicada ainda, que trata da interpretação da lei. O fiscal do Procon opera pela letra morta, sem uma análise contundente sobre os tipos de situação em que a letra deve ser tratada com mais, menos ou nenhum rigor.

Exemplo disso é o que chamam de “propaganda enganosa”. Se um estabelecimento comercial, como um supermercado, libera os funcionários do caixa em escala programada para cumprirem seu horário de almoço, o Procon entende que cada caixa fechado configura propaganda enganosa, pois onde há uma placa numerada identificando cada caixa, entende-se que deve haver um caixa aberto. Logo, um supermercado que tem 15 caixas registradoras precisa permanecer das 7 às 23 horas com todos eles abertos e com um funcionário operante para o público, se não quiser configurar propaganda enganosa. Já pensou se esse ponto de vista servisse também para os correios, prefeituras, Detran e demais órgãos públicos?!

Outro disparate é o que chamam de “caixa preferencial”, onde você deve ter caixas preferenciais identificados em número suficiente para atender às pessoas com necessidades especiais. Ora, se você oferece atendimento prioritário a essas pessoas, colocando-as para serem atendidas em qualquer caixa prioritariamente, isso não é suficiente. Você precisa ter caixa preferencial identificado e exclusivo parado para atender apenas essas pessoas. Nem que forme fila, e nem que fique sem fazer nada enquanto outros caixas estão com fila...

Quer mais um conceito? Chama-se “avaria”. Esse é o mais absurdo de todos, pois os fiscais do Procon andam fiscalizando produto com embalagem amassada e produto comestível quebrado, como chocolate em barra e ovos de páscoa, por exemplo. Agora se o chocolate em barra partiu ao meio, mesmo sem ter sua embalagem violada, o Procon recolhe alegando avaria. Como assim: avaria?! O produto é comestível, mastigável, e sua quebra em dois pedaços não configura prejuízo nenhum ao consumidor. Ora, já imaginaram se pela mesma linha de raciocínio eles começarem a recolher rosquinhas, espaguete, torradas e biscoito? Quem sobreviverá àquilo que o Procon chama de “defender o consumidor”? Até porque, salvo se o consumidor for cego, não há porque recolher produtos avariados de um supermercado, pois na opção de levar um inteiro ou um quebrado, o consumidor é soberano para escolher. Diferentemente de um computador, sapato ou relógio avariado, cujo funcionamento e aspecto exterior têm igual relevância ao consumidor e só serão verificados de fato ao abrir a caixa em casa.

Esse outro exemplo eu vou dar, mas por favor, não vão pensar que é piada, pois é muito sério: trata-se do "produto embalado". A loja tem uma seção de hortifruti e o lojista envole o coco seco em filme plástico transparente para que o produto não fique soltando sujeira da casca na banca. Ou então, um maço de alho poró, que o lojista envolve com filme plástico para preservar sua integridade. E por que não citar a melancia, que o lojista gentilmente parte em dois pedaços para que o cliente veja o seu interior e compre meia porção se lhe agradar, envolvida higienicamente em filme plástico. Pois o fiscal do Procon olha e autua um por um alegando tratar-se de produto embalado, e que segundo a lei deve conter peso, origem e informações nutricionais no rótulo... Vejam bem os amigos em que ponto chegamos no grau de intolerância e análise superficial dos amigos do Procon!

Isso sem falar no comércio da reparação por "danos marais", onde o Procon incita o consumidor a brigar na justiça contra o estabelecimento pedindo indenização por danos morais para qualquer tipo de situação onde ele foi lesado, em uma perfeita demonstração de abuso dos direitos através da "lei do mais fraco". Ou seja, a hipótese de o Procon promover uma justa conciliação entre as partes, reduzindo até o volume de tramitações de ações no poder judiciário, parece estar totalmente descartada pela entidade.

Às vezes fico aqui buscando compreender o que leva um organismo sério como esse envolver-se em tamanha perda de tempo com fiscalizações e apreensões que nada trazem de proveitoso para o consumidor, lesando o estabelecimento. Antes, deveriam buscar a solução de conflitos, reparação de prejuízos ou troca de produtos onde o empresário muitas vezes não cumpre o seu papel. Em pesquisa no site do Procon do Distrito Federal encontrei os seguintes dizeres:

Missão
- Promover o equilíbrio das relações de consumo por meio da aplicação das normas de defesa do consumidor em benefício da sociedade.

Visão
- Ser nacionalmente reconhecido como referência na solução dos conflitos decorrentes das relações de consumo.

Objetivos
- Suprir a vulnerabilidade do consumidor;
- Conscientizar consumidores e fornecedores quanto aos seus direitos e deveres nas relações de consumo;
- Dar celeridade à solução dos conflitos decorrentes das relações de consumo;
- Harmonizar as relações de consumo.

Vejo que alguns pontos são poucas vezes levados em conta nesses conceitos, onde ignora-se que o comércio, representado e operado por pessoas, brasileiros assalariados, também faz parte da sociedade citada na Missão; não se promove a harmonia nas relações de consumo conforme um dos Objetivos, mas ao contrário, protege-se incondicionalmente o consumidor e fere-se a propriedade do empresário empregador, cujo estabelecimento é uma das fontes de desenvolvimento econômico e social da nação; e não supre a vulnerabilidade do consumidor, vítima de abusos como no preço da gasolina com a nítida formação de cartéis em quase todas as cidades pequenas e médias do Brasil.

Enfim meus caros leitores, o que temos visto no Brasil é um verdadeiro abuso de poder, mau uso pelos órgãos dos fins para que se destinam, e mais uma forma de agravo à dura realidade do empreendedor desse famigerado país, que ao invés de promover o desenvolvimento com justiça, incentivos e oportunidades aos investidores, promove sim é uma dura opressão, cobranças de multas e impostos crescentes em uma verdadeira inversão de valores sobre quem é que move a economia de um país.

Abrir empresa aqui no Brasil é coisa para quem não tem juízo. Enquadrar-se nas normas do Procon, Anvisa (Vigilância Sanitária) e Ministério do Trabalho simultaneamente, tendo ainda que honrar com toda a tributação, taxas de funcionamento, alvarás e licenças de um estabelecimento comercial é missão quase impossível. Essa é a triste realidade de quem se aventura a empreender nesse Brasil subdesenvolvido. Quem dera voltássemos ao passado, onde a economia de subsistência evitaria todo o conflito entre vendedor e comprador. Quer um bom carro, um bom vinho ou uma boa camisa? Produza você mesmo, sem depender de um industrial fraudador ou um comerciante displicente...