quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O mercado não está preparado para nichos minoritários


Essa semana estava envolvido numa discussão sobre o varejo brasileiro. Será que ele está preparado para o mercado de idosos e demais nichos?

Não acredito que esteja... o varejo não está preparado nem para idosos e nem para pais com crianças pequenas, por exemplo. Alguns supermercados possuem banheiros inacessíveis, desses que um idoso não consegue chegar a tempo para fazer suas necessidades. Os shoppings, a mesma coisa... e o mesmo se aplica a crianças. Todos os estabelecimentos precisam ter banheiros impecavelmente limpos e também banheiros individuais para que um pai, como eu, possa levar uma filha de 4 anos ao banheiro... Não posso entrar no banheiro feminino com ela, e o masculino em muitos casos é padrão lixo de higiene. Minha filha já fez xixi na roupa por não conseguir segurar até chegarmos no banheiro que ficava, pasmem, no piso subterrâneo junto ao estacionamento de um supermercado. Nem vou falar de fraldários... deveriam ser obrigatórios. 

Confecções

E na linha de confecções! O varejo não está preparado nem para mulheres fora do manequim extra-magro, o que dirá para idosos... Para homem é mais fácil, mas vejo como sofre uma mulher que não esteja com o corpo igual ao da Deborah Secco, ou o cadavérico manequim da Adriane Galisteu na hora das compras... 

Construtoras

As construtoras têm construído imóveis a custo popular, porém, blocos de 4 andares SEM ELEVADOR. Ou seja, não são feitos para atender a um idoso e nem a cadeirantes e dificultam muito a vida de gestantes e mães com bebê de colo. 

Supermercados

Uma outra forma de perceber a falta de foco do varejo para o mercado de idosos é observar as seções de produtos especiais nos supermercados, como a linha de produtos diet e light, e especialmente a linha de produtos com redução de sódio, como o sal light com 50% menos sódio do que o convencional. Muitos supermercados não oferecem uma diversidade significativa desses itens, que ofereçam qualidade de vida sem agredir a saúde dos membros da terceira idade. E quando oferecem, o aumento de custo é desproporcional... 

Escola de informática

Existem agências de turismo oferecendo pacotes para a terceira idade, e estão obtendo êxito nisso. Mas outros segmentos já não prospectam esse nicho. É o caso das escolas de informática. O idoso também quer usar computador, comunicar-se com os filhos e netos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Alguém conhece uma escola de informática que ofereça cursos dirigidos para esse nicho crescente e carente de conhecimentos práticos para explorar as ferramentas de foto, vídeo e msn? Alguém aqui tem conversado com a vovó ou com a mamãe sessentona através do computador? Muitos conseguem, mas ainda há um número infinito de usuários do lado de lá que não sabe sequer ligar um micro.

A culpa é do departamento de Marketing!

Vejo no nosso dia a dia dezenas de oportunidades mal exploradas pelas empresas. E muitas vezes porque acreditam que, mercadologicamente, dirigir um comercial ao público de terceira idade pode subjetivamente afastar o público mais jovem, e até dos mais maduros que não se sentem ainda "idosos", por assim dizer.

É o mesmo efeito da Coca Diet, que na década de 80 era vista como remédio para diabético. Assim tiveram que lançar o mesmo produto, mas com o nome Light, para suavizar a mensagem e atingir também os que buscam apenas redução de calorias. A venda decolou assustadoramente, sendo vendido o mesmo produto, mas com um apelo mais jovem. Hoje rejuvenesceram ainda mais, e transformaram o Light em ZERO.

O Banco do Brasil também investiu verdadeira fortuna para rejuvenescer a marca e conquistar o público jovem na década de 90, pois tinha cara de banco para velhos, focado na solidez e segurança. Hoje todos os bancos focam na juventude, e fazem até pouco investimento em marketing nos planos de aposentadoria privada. Pois, salvo alguma infelicidade, até a mais bela moça deverá um dia ficar velha... Ou seja, tocar no assunto "velhice" não é mercadologicamente correto.

Hoje as pessoas gastam até o que não têm para "rejuvenecer", e aos 70 anos alguns chegam a aparentar 40. Pergunte se eles se sentem bem assumindo a verdadeira idade...

Infelizmente a cultura prega a eterna juventude como a forma legal de se viver, onde envelhecer "é careta". Por isso o mundo business ainda recebe pouco investimento para atingir de fato o nicho dos mais velhos.

Parecem jovens, mas no fundo...

Apesar das aparências externas, por dentro os idosos ainda necessitam de cuidados específicos. Seu organismo e os 5 sentidos já não são mais capazes de agir como nos velhos tempos. E é nesse ponto que destaco a pouca importância que o varejo dá à terceira idade. Ainda há muitos detalhes inegociáveis e perceptíveis por um idoso que não estão sendo cuidados pelos varejistas, e que poderiam fidelizar essa clientela no seu dia a dia, onde consomem mais dinheiro. Nesse ponto volto a destacar a atuação dos supermercados e shopping centers, bastante desleixados com relação à essa categoria crescente de consumidores.

Por isso é que acredito que o varejo no Brasil não está preparado para o mercado da terceira idade e de outros nichos específicos...