quinta-feira, 5 de março de 2009

Crônica corporativa: a síndrome de Rei Felipe

Havia um homem no passado de nome Felipe, rei da Macedônia. Um grande conquistador, que apesar dos métodos nada ortodoxos de conduta, era visto por seu povo como um homem de sucesso. Era admirado por sua bravura por aqueles que assistiam sua glória, seu retorno sofrido de duras batalhas.

Para quem o conhecia um pouco mais a fundo e acompanhava sua rotina lado a lado, sabia que Felipe era um guerreiro sem escrúpulos. Conquistava nações, saqueava as cidades, possuía as mulheres, escravizava os homens e matava seus reis e generais. Era sórdido e oportunista, traiçoeiro e ambicioso. Para conquistar e manter o que queria, sua tática era a de eliminar qualquer possibilidade de risco. As suas glórias e as riquezas que trazia para seu povo tinham cheiro de sangue.

No mundo corporativo existem as pessoas em vários escalões com a síndrome do Rei Felipe. São os incapazes e inseguros, que garantem sua posição e crescem nem que isso custe a vaga de algum talento em potencial. São as pessoas que não mantêm seus postos pela competência própria e percebida, mas pela tática onde preparam as situações de modo a promover os erros dos demais, aparentando, diante dos erros dos outros, serem profissionais confiáveis. O jogo traiçoeiro perambula no ambiente de trabalho, e deveria ser visto com mais desconfiança pelos dirigentes de maior escalão. Só quem está no trabalho paralelo percebe as obras arquitetadas por um “Felipe”, pois os demais só conseguem ver o desfecho e a sua glória.

Mas o fim do Rei Felipe foi trágico. Foi assassinado durante uma festa em seu palácio, em sua homenagem, numa traição arquitetada pela sua própria esposa.

Quem tem síndrome de Felipe sofre de um desequilíbrio existencial: alcança glórias momentâneas, mas sofre com grandes conflitos pessoais e exclusão social gradativa. A vida de um Felipe é conflituosa e infeliz.

O Rei Felipe é pouco conhecido na história dos grandes conquistadores, pois após sua morte, herdou o trono seu único filho legítimo, aquele que ofuscou todos os seus atos: Alexandre, o Grande.

Alexandre tornou-se um dos maiores conquistadores devido a sua conduta como líder. Antes de destruir uma nação, com seu exército às portas, apresentava-se ao rei e oferecia uma proposta: agregaria o povo ao seu comando e nomearia o rei governador do seu novo Estado, deixando intacto tudo o que nele havia. Não escravizaria os homens, mas os adicionaria ao seu exército, que a cada nova “conquista” ao invés de novas baixas, aumentava em número e poder.

O império de Alexandre cresceu mais do que qualquer outro, mas também teve seu fim trágico após um gesto ambicioso e excesso de preciosismo. Quando primou por sua própria glória e não pelos interesses coletivos, foi destruído e sacrificou grande parte do seu exército.

Mas Alexandre deixou uma lição: escreveu seu nome na história da humanidade e ficou conhecido como um rei sábio, justo e bem sucedido.

Felipe sucumbiu, mas Alexandre permaneceu. A diferença estava nos métodos comportamentais e gerenciais. Ambos tinham os mesmos objetivos, mas Alexandre soube respeitar todos os homens e cresceu em benefício de sua nação, não de si próprio. Alexandre confiava em si e em sua equipe, e sabia que na soma das qualidade individuais o império seria cada vez mais forte.

Mas quem sofre da síndrome de Felipe pensa somente em si. Teme perder seu espaço e deixa de fortalecer a corporação por sua covardia e insuficiência intelectual.

O homem e profissional tem livre arbítrio, pode ser Felipe ou Alexandre. E fazendo a sua escolha pode também traçar seu próprio futuro. Feliz é a corporação que se livra de um Felipe para dar espaço a um Alexandre.