segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Qual a relação entre a sua índole e a sua religião?

Hoje fui pego de surpresa com a notícia de que a Atea - Associação Brasileira dos Ateus e Agnósticos - está veiculando em Salvador e Porto Alegre uma campanha institucional que irá sugerir ao público que questione suas crenças, sua religiosidade e seu comportamento.

Conforme publicado no site m&m online, "Segundo a entidade, a campanha não tem o objetivo de provocar uma descrença em massa, mas sim de lutar pela igualdade de opinião e pela aceitação na sociedade daqueles que não creem em uma entidade superior. Em um texto publicado na página oficial da associação, a entidade declara que a voz dos ateus precisa ser ouvida para o pleno desenvolvimento de um estado laico e sem preconceitos.

Ao todo, foram criadas quatro peças, com frases que questionam a relação entre crença religiosa e bom caráter, por exemplo. Em uma delas, a agência colocou lado a lado Charles Chaplin e Adolf Hitler. Logo abaixo da foto do artista, aparece a frase “Não acredita em Deus”, enquanto na imagem do líder nazista está a frase “Acredita em Deus”, na tentativa de mostrar que nem sempre a religião molda a índole dos seres humanos. As outras peças trazem frases como “Somos todos ateus com os deuses dos outros”, “A fé não dá respostas. Só impede perguntas” e “Se Deus existe, tudo é permitido”.
"

Coloquei-me a pensar nesse assunto (mesmo já tendo opinião formada a respeito) procurando compreender a linha de pensamento de algumas pessoas e suas convicções, e como foi que chegaram a elas.

De início, acredito que relacionar a crença ao comportamento é tolice. Primeiro porque o comportamento não se molda no "crer", mas no "praticar". É como ser comunista e não praticar ou não compactuar com seus partidários ideológicos, sendo assim um comunista de fachada. Se o sujeito diz que crê em Deus, deve saber que tão importante quanto crer é seguir, e aí sim o comportamento está relacionado à religião. É como crer em Deus, ler a Bíblia, e praticar adultério, ocultismo, roubo ou assassinato regularmente, o que é condenado segundo o livro sagrado do cristão. Crê da boca pra fora e em vão frequenta uma igreja, pois não pratica o que lhe é ensinado e pratica o que é considerado proibido (também conhecido como pecado).

Não há valor nenhum em crer e não seguir...

Talvez sob esse aspecto é que os agnósticos questionam a religiosidade. E nesse quesito, o povo indígena é mais disciplinado do que o povo civilizado, onde muitos deles só é cristão nos momentos mais convenientes, tipo na hora da doença, do desemprego, da falência, da solidão... E nesses momentos procuram as igrejas com pastores milagreiros, que transformam a fé num comércio de favores Divinos. Os indígenas adoravam a lua, o sol, a terra, e seguiam suas crenças para não provocar a ira de seus deuses. Assim criam e seguiam, e isso opera uma conduta comportamental lógica. Se o Deus deles existe ou não é uma questão de fé individual, o que não tira o valor de seus atos diários, contundentes conforme a fé declarada.

Por outro lado, alguém pode ser ateu e ser civilizado, ou seja, um cumpridor da lei de onde vive, como Charles Chaplin e muitos outros. O que nos leva a compreender que há várias formas de se viver na coletividade respeitando o seu próximo, o que por coincidência também está na doutrina da maioria das diferentes religiões.

Nesse contexto o que importa enquanto seres vivos é a vida coletiva dentro de alguma ordem, seja  seguindo uma doutrina religiosa, seja através da educação dos pais, seja através das aulas de OSPB ou de Educação Moral e Cívica (ainda existe isso?!). De onde você veio, ou o que vai acontecer com você após a morte, isso sim não deve ser questionado. Cada um que acredite no que quiser... desde que viva bem em sociedade e com a sociedade, e isso sim poderia ser estimulado pelos ateus.

Agora uma coisa não sai de minha cabeça: crer em algum Deus e frequentar alguma igreja tem um fim. Mas ser ateu, não crer na existência de uma entidade superior e reunir-se numa associação leva a quê? Tem qual finalidade? O religioso tenta convencer um não-religioso a converter-se e a crer em seu Deus para que a alma siga um caminho após a morte. Mas e o ateu que frequenta a associação, tenta buscar o quê exatamente? Se buscam através dessa campanha conquistar uma igualdade ou uma maior aceitação na sociedade, acredito que a campanha torna-se discriminatória em relação a quem crê, fazendo parecer que isso seria uma tolice ou uma ilusão.

Seria como criar uma associação dos que "não gostam de futebol". Ora, se não gosta mude de canal, leia um livro e deixe o resto pra lá! Eu não gosto de carnaval e aproveito o feriado para acampar na beira de um lago... você que gosta, divirta-se!

Acho que quem não tem um objetivo, seja ele qual for, não deve dedicar seu tempo questionando quem tem. Isso sim me parece tolice, e torna-se um tempo muito mal aproveitado...